1 CO 2:11-14( O Homem Natural)

 Calvinistas insistem que a fé é produto da regeneração, e não o contrário; que o homem permanece morto espiritualmente e em inimizade contra Deus até o dia em que o Espírito vem com poder e, através da pregação do Evangelho, o capacita a crer nas “palavras de vida eterna” (João 6:68). Acerca disso, John Piper (2014, p. 32) afirmou:

Se uma pessoa se torna humilde ao ponto de submeter-se a Deus, isso acontece porque Deus lhe deu uma natureza nova”. Isso é o que calvinistas chamam de “graça irresistível”: a “obra soberana de Deus de vencer a rebelião de nosso coração e trazer-nos à fé em Cristo, para que sejamos salvos (PIPER, 2014, p. 31).

Nosso objetivo, portanto, é analisar o que a Bíblia nos ensina a esse respeito. Devido ao espaço aqui, nos deteremos num dos textos didáticos mais claros sobre o assunto da relação entre o homem, o Espírito e a revelação divina: 1 Coríntios 2:14. Ao lidarmos com essa passagem, temos em mente dois problemas a serem resolvidos: Qual a resposta do homem natural ao Evangelho e como ele pode ser capaz de crer e ser salvo? Para respondermos a esses questionamentos, trabalharemos três tópicos importantes: 1) o significado da expressão “homem natural”; 2) a natureza da vontade desse homem natural; e 3) a natureza de sua razão. Analisaremos o texto de 1 Co 2:11-14.

1 cor 2:11 ψυχικὸς δὲ ἄνθρωπος οὐ δέχεται τὰ τοῦ πνεύματος τοῦ θεοῦ μωρία γὰρ αὐτῷ ἐστιν καὶ οὐ δύναται γνῶναι ὅτι πνευματικῶς ἀνακρίνεται

1 CO 2:14 " Ora, o homem( ψυχικὸς )natural( ἄνθρωπος ) não compreende( δέχεται) 

as coisas do Espírito de Deus, porque( γὰρ) lhe parecem loucura( μωρία  ) ; e não pode(  δύναται )      entendê-las( γνῶναι ) , porque elas se discernem(   ἀνακρίνεται)                   espiritualmente.

Paulo utilizou sete termos para descrever os aspectos do homem natural/decaído, são eles: *alma (psychç)* ; *espírito (pneuma); carne (sarx); corpo (sôma); coração (kardia); mente (nous); e consciência (syneidçsis).* 

Já em 1 Coríntios 2.14, o termo psychikos (material, natural) é utilizado como referência ao homem não regenerado, contrastando com pneumatikos (espiritual).

Espírito (pneuma): embora seu uso mais comum seja referente ao Espírito Santo, pneuma, na teologia paulina, também é parte inerente ao ser humano. Quando, em 1 Coríntios 2:11, o apóstolo fala no “espírito do homem”, fica difícil de aceitar que o homem recebe o pneuma após a conversão. Mais coerente, é considerar que o pneuma está desativado pela degeneração, e quem o reativa é o Espírito de Deus, no processo de conversão/regeneração. Assim, podemos entender pneuma como sendo a mais elevada representação da natureza humana. Por si mesma, essa natureza não é boa nem má; ela torna-se boa ou má através da influência dominante. Sendo assim, o cristão regenerado tem a natureza sob influência do Espírito Santo, tornando-se, por fim, bom. Em contrapartida, o não regenerado continua escravo do pecado, sendo mal em sua essência depravada.

Qual a resposta do homem natural ao Evangelho e como ele pode ser capaz de crer e ser salvo?

Seria melhor definir ψυχικὸς ἄνθρωπος negativamente como aquele homem que não recebeu o Espírito, ou como o fazem a NVI e a NTLH, que traduzem por “quem não tem o Espírito”. Em resumo, temos aqui o homem não habitado pelo Espírito e, consequentemente, não regenerado.

O homem natural e a natureza de sua vontade

O texto passa a tratar da disposição do homem para com a revelação divina. É dito deste homem que ele não “aceita” (δέχεται) “as coisas do Espírito de Deus”, coisas estas espirituais. Sua vontade está claramente em foco. O Espírito de Deus aqui é o próprio Espírito Santo, ou seja, o Espírito que é Deus.

A ligação do Espírito com o δέχεται (“aceitar”) traz uma ênfase sobre a natureza daquilo que não é aceito pelo “homem natural”, ou seja, “as coisas do Espírito”, a qual compartilha da essência do próprio Deus. Assim, não é algo de pouca importância o que o “homem natural” não aceita.

É interessante que δέχεται é um verbo na voz média.

O sujeito médio pratica ou experimenta a ação expressa pelo verbo de uma maneira tal que enfatiza a participação do sujeito.

acrescento ainda à definição a ideia de que o “sujeito participa intimamente nos resultados da ação”. Desse modo, o fato de o homem natural não aceitar as coisas do Espírito demonstra sua culpa, a despeito de não ter recebido (ἐλάβομεν) o próprio Espírito (v. 12); ele não deixa simplesmente de aceitar (negativamente), mas ele as rejeita (positivamente), e a ênfase aqui é exatamente nesta rejeição, sem falar que o resultado desta ação é sua alienação das coisas espirituais, o que o mantém, no mais íntimo de seu ser, completamente alheio àquilo que só o faria bem.

A preferência da pessoa “pelo pecado é tão forte, que ela não pode escolher o bem. É uma escravidão verdadeira e terrível, mas não inocente”. A vontade do homem natural é completamente indisposta para com a revelação.

Por que o homem natural não aceita?

A explicação oferecida ao porquê deste homem não aceitar as coisas do Espírito é bem direta e simples: “porque [γὰρ] loucura [μωρία] é [ἐστιν] para ele [αὐτῷ]”. A palavra μωρία é colocada bem no início da oração no grego, o que demonstra a ênfase do autor na avaliação que o homem natural faz das coisas espirituais. O veredito dele, como se entende pelo uso de ἐστιν, um presente do indicativo ativo, é que não passam de “tolice” (outra tradução para μωρία). É assim que ele as considera.

O homem natural e a natureza de sua razão

É dito ainda que este homem natural “não pode [δύναται] entendê-las [γνῶναι]”. Sua razão está em foco agora.

O verbo δύναται é depoente, ou seja, “é médio […] quanto à forma, mas ativo no seu significado.

Assim, enquanto na média teríamos uma ênfase no “agente [sujeito] do verbo”, na ativa “a ação do verbo” é que está em foco  Seu significado ativo destaca aquilo que “o sujeito pratica, produz ou experimenta” em relação “a ação” do verbo, ou ainda, explicita sua existência “no estado expresso pelo verbo” O que o verbo expressa? [In]capacidade! Assim, toda a força recai sobre a [in]capacidade de entender (γνῶναι) as coisas espirituais. Na mentalidade paulina, o homem vive neste estado de incapacidade cognitiva quanto às coisas de Deus.

O segundo verbo, “entender” (γνῶναι), por ser ativo, também atrai ênfase para si, ressaltando quão inconcebível é aquilo que o homem não pode “reconhecer”, e por ser infinitivo, ligado a δύναται, complementa, como normalmente acontece neste uso, o sentido do verbo auxiliar, esclarecendo o que o homem natural não pode fazer: ele é incapaz de “reconhecer” as coisas do Espírito como verdadeiras e dignas de confiança.

“esse ‘não pode’ é moral, e não físico”. Por essa impossibilidade Paulo “queria dizer que o coração é tão resistente a recebê-las, que a mente justifica a rebelião do coração por vê-las como loucura. A rebelião é tão completa, que o coração realmente não pode receber as coisas do Espírito”

Se entendermos liberdade aqui como algo além da capacidade de escolher segundo suas inclinações, estendendo-a à possibilidade, sem a possessão do Espírito, de ultrapassar sua rebelião de coração e escolher as coisas espirituais, certamente poderíamos afirmar que o homem natural não a possui. Tanto sua vontade quanto sua razão estão em completa rebelião.

Esse texto já deixou claro que a situação da vontade e razão do homem natural não permitem à mensagem do Evangelho ser uma opção válida em sua moldura de possibilidades, no entanto, prosseguiremos com a pergunta: essa mera iluminação da graça resistível é suficiente para vencer sua rebelião?

Graça resistível é suficiente?

Se, neste ponto, a pergunta for novamente levantada sobre a razão para tal incapacidade de compreensão, a segunda resposta de Paulo está bem à mão. Além da vontade e razão naturalmente indispostas, o apóstolo acrescenta: ὅτι πνευματικῶς ἀνακρίνεται (“porque elas se discernem espiritualmente”). Em outras palavras, 1) sua própria vontade caída o impossibilita e é seguida pela razão; e 2) aquilo que pode fazê-lo superar esta queda lhe falta – a habitação do Espírito Santo. Assim, mais que a iluminação de uma graça resistível, ele realmente precisa ter o Espírito.

É interessantíssimo o fato de ἀνακρίνεται (“discernir”) ser encontrado na voz passiva. Isto denota, conforme Wallace (2009, p. 431), que “nenhuma volição – nem mesmo necessariamente a consciência da ação – é implicada por parte do sujeito”. Isso não quer dizer que a vontade está sempre completamente ausente; “o sujeito pode ou não estar a par, sua volição pode ou não estar envolvida. Mas isso não é enfatizado quando a passiva é usada” (WALLACE, 2009, p. 431).

A ênfase, portanto, recai sobre a vontade do agente por meio de quem o homem é capacitado a discernir as coisas espirituais. E quem é o agente que torna o homem capaz de compreender e aceitar as coisas espirituais? O Espírito! Como esclarece o uso do advérbio πνευματικῶς, é pela agência do Espírito que o homem pode entender (ou discernir) as coisas do próprio Espírito. A concessão do Espírito, ao transformá-lo em homem espiritual, é a única coisa que vence sua rejeição obstinada. Assim, se alguém pergunta: como o homem pode crer? Uma coisa é certa: não por mera influência, mas sendo transformado em “espiritual” (= sendo regenerado).

É interessante que no v. 12 Paulo já havia explicado a razão pela qual os crentes haviam abraçado a revelação divina. Paulo inicia um novo subtema ali. Ele declara: Nós recebemos o Espírito que vem de Deus. Esta é a declaração de um fato. Este Espírito é o objeto do verbo, e o aoristo  (ἐλάβομεν) é utilizado para emoldurar o ponto a ser desenvolvido, assim como o uso de um δέ confirma que se trata de um novo desenvolvimento, a saber, o recebimento do Espírito (= ser transformado em “homem espiritual”). Enquanto nos vv. 14 e 15 ele contrasta homem natural e espiritual, no v.12 ele explica qual a finalidade do recebimento do Espírito.

Este Espírito havia sido recebido com um propósito bem específico: conhecer as coisas de Deus. O verbo εἰδῶμεν, um perfeito ativo subjuntivo, indica que mais uma vez o autor muda o foco da declaração geral acerca do Espírito que “recebemos” (aoristo), para levar o leitor a olhar com mais atenção para o propósito e resultado de O termos recebido, conforme demonstra o uso de subjuntivo + ἵνα (“com o propósito de”), ou seja, O recebemos para “conhecermos” (εἰδῶμεν) as “coisas divinas” (τὰ) e, porque este é o propósito de Deus, o resultado é que nós realmente as conhecemos pelo Espírito que recebemos. Este uso é devido, dentre outras coisas, ao fato de que “no pensamento judeu […], propósito e resultado são idênticos nas declarações da vontade divina” (BAGD, 1979, p. 378, apud WALLACE, 2009, p. 473).


O ponto de Paulo é o seguinte: o homem recebe o Espírito para compreender a revelação e não o contrário, como afirmam os molinistas e arminianos. Ambos os homens, natural e espiritual, tinham a mesma indisposição natural contra Deus. A única coisa que os distingue é que aos últimos foi concedida a habitação do Espírito com o propósito (ἵνα) de receber o Evangelho.

Em resumo, o motivo pelo qual o homem natural rejeita as coisas espirituais, a revelação, repousa na rebelião de sua própria vontade incapacitante: ele não quer e não pode! Talvez alguém pudesse imaginar que é exatamente por ser incapaz de entendê-las que ele as considera como tolice ou loucura. Mas as ênfases no texto, como vimos, nos levam a entender que o problema é mais que ignorância; é sua vontade caída e obstinada que o leva a considerar as coisas do Espírito dessa maneira.19 Como Piper (2011, p. 51) escreve:

O problema não é que as coisas de Deus estão acima da compreensão do homem natural. O problema é que ele as vê como loucura. […] De fato, elas lhe parecem tão loucas, que ele não pode compreendê-las. Ele só será capaz de desejar tais coisas se sofrer a experiência do recebimento do Espírito, sendo transformado em homem espiritual.

Nas palavras de Calvino (2003, p. 94), Paulo “não teria dito nada além da verdade, caso afirmasse que os homens não desejam ser sábios, porém avança um pouco mais, dizendo que os homens nem mesmo têm o poder de o ser. Daí concluirmos que a fé não provém das próprias faculdades humanas”, mas ao contrário, esta fé é “divinamente conferida”. Em outras palavras, opondo-se completamente ao entendimento molinista e arminiano, o ensino de Paulo é que o homem natural sempre resistirá ao Espírito, até que o próprio Espírito o invada e o converta em homem espiritual, concedendo-lhe a fé que ele tanto necessita.


Essa situação de completa indisposição espiritual do homem natural (homem sem o Espírito) para com Deus e sua revelação é o que Paulo chama em outro lugar de “morte” (Ef 2:1, 5). Tanto aqui como em Efésios (2:1-6), a solução para o problema é uma só: concessão de vida (= concessão do Espírito; vivificação; ressurreição; regeneração). Essa “concessão” é o que produz no homem a capacidade de crer; o que ele exerce, tão logo é regenerado.

Seja qual for a descontinuidade que se possa alegar existir entre a metáfora da morte espiritual e a realidade da morte física, uma coisa é certa: ela deve concordar com a completa incapacidade, exibida em 1 Co 2:14, do homem sem a habitação do Espírito de responder positivamente à revelação.

 

Conclusão

Voltando às perguntas da introdução, concluímos que a resposta do homem natural ao Evangelho, dada a condição caída de sua vontade e razão, é sempre negativa. Ele só pode crer e ser salvo se Deus o regenerar concedendo-lhe o Espírito.

Arminianos e molinistas falham por continuar esperando que mortos creiam antes de viver. Falham por não dar à metáfora da “morte” espiritual o exato peso de completa incapacidade que Paulo confere ao homem natural. Ao insistirem que a iluminação da “graça resistível” é suficiente, não apenas estão indo contra o texto acima exposto, mas também deixam a porta aberta para a pergunta: o que o homem se torna sob tal graça? Se a resposta é que ele permanece “natural”, ainda que supostamente iluminado, a sentença de Paulo continua verdadeira: Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente (1 Cor. 2:14). O ônus da prova de uma via média que apresente o homem em algum estágio entre vida e morte, natural e espiritual, é algo que permanece sobre os ombros de molinistas e arminianos.

A grande verdade em 1 Co 2:14 é que o homem natural pode ouvir o Evangelho e ler a Bíblia diversas vezes e por diversos motivos; talvez até encontrar coisas interessantes e úteis , mas sem a atuação regeneradora do Espírito vindo habitar nele, seu veredito final quanto ao cerne e implicações da revelação, ainda que inaudito muitas vezes, continuará. Isso é uma “tolice” e um “absurdo”!



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